Palavrear

Porque toda vida deve ser vivida.

Contra o tempo.

Quatro meses atrás eu estava perdido e inerte, lutando contra uma força que eu, tolo em minhas faculdades, desacreditava ser possível existir pelo simples fato de ser intangível, pelo menos até então, pra mim. Claro que eu não admitia isso, meu orgulho não permitia que eu afirmasse em voz alta a minha incapacidade de ser merecedor dessa força que tanto move e energiza os ditos seres humanos. Minha auto-proteção impedia que eu conseguisse admitir, mesmo que por um instante, que eu não seria digno de viver tal sentimento tão forte e intenso.
Talvez fosse por isso que, no dito pelo não dito, ou no não dito pelo dito, tanto faz, eu desejasse e venerasse tanto essa sensação que o amor seria capaz de me trazer. Talvez fosse por isso que eu, incapaz de me imaginar possuidor de tal dádiva, me negasse a possibilidade, não me deixasse sentir algo próximo. Claro, eu sabia que no final, ‘algo próximo’ nunca seria o que eu esperava e queria. Acho que era por isso que eu nunca teria aquilo, obviamente, já que de tanto querer eu era incapaz de sentir ou notar a aproximação.
Talvez nunca ter tido isso, digo, de verdade, me fizesse tratar essa coisa chamada amor como a luz de um farol, que ilumina o caminho dos barcos e dos homens, que, em todo o platonismo existente em minha cabeça, era a salvação dos seres, das almas. E eu estava errado, como sempre. O amor não é e jamais poderá ser a luz do farol, porque algo que possui luz própria não precisa ser iluminado. Ou salvo.
Assim, meus caros e minhas caras, foi que o amor se apresentou pra mim, puro e verdadeiro, doce e amargo, meigo e cruel, ou seja, em sua completude, cento e vinte e dois dias atrás, em uma louca e inesperada noite de agosto. Simples como uma flor, leve como o vento, forte como uma pedra, transparente como a água e intenso como a luz, foi assim que eu fui tocado, mesmo que de assalto, por aquilo que tanto esperei.
E, pela primeira vez, eu não me opus à isso. Eu quis ficar cego, eu quis ficar sem ar, eu quis perder o chão. Pela primeira vez, eu quis suspirar noite a dentro.

One Comment on “Contra o tempo.

  1. Cássio Tessmer
    dom | 01 | jan , 2012

    (y)

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This entry was posted on ter | 27 | dez , 2011 by in Novo Palavrear.

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