desfiladeiro


estou deitado. há luzes, barulho, a cidade correndo pela pequena janela aberta. é tudo muito branco e harmônico.
tento me levantar mas não consigo. estou preso, amarrado à uma cama dura e fria. há algo penetrando meu braço na altura da junta. uma agulha. soro.
tento gritar, mas da garganta nada sai. tento mais uma vez, em vão, me levantar. pergunto o que houve e, enquanto o homem no jaleco branco me explica, eu começo à lembrar…
– um carro. barulho, muito barulho. o velocímetro prestes à saltar do painel. vidros quebrados. vidros quebrando. gritos ecoando. o desfiladeiro.”
agora lembro-me de tudo. eu tentei me matar, não agüentei tanta mágoa, tanto sofrimento. tanta dor.
peguei o carro, dirigi até onde o sol se punha e caí. me joguei. deixei que as ferragens me cortassem enquanto transeuntes gritavam de desespero.
“teria ele se matado? perdido o controle do carro?”
mal sabem eles que o que me matou não foi a queda, e sim a vida. minha vida.
peço ao homem de jaleco branco que me deixe. que me abandone assim como eu mesmo fiz. ele se recusa inicialmente, mas diante de minha insistência ele desistisse. desiste de me convencer. desiste de mim.
digo-lhe para aproveitar a viagem e dizer que lutou por minha vida. ele tenta entender. seguro-lhe a mão e digo que foi um prazer conhecer ele.
eu sabia. ele sabia. nós sabíamos que era a hora de partir.
– deixe-me descansar em paz. finalmente, em paz.
peço-lhe e fecho os olhos. o fim, finalmente, chegou.

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