Querido Capitão


To vivendo a vida num além mar,
que entre trancos e barrancos,
solavancos,
faço de tudo para me equilibrar.

Agüentando minhas pernas,
bambas de tanto no convés sambar,
faço que minhas palavras ecoem,
para que não haja homem ao mar.

E se tal homem ao mar for eu,
sei que nada será como antes,
apesar de nunca ter sabido nadar,
sou daqueles aprendizes errantes.

Porém a corda para mim é jogada,
e eu num louco e vívido mistério,
tenho de pronto uma jangada,
me largo e volto grogue pro mar.

Então eis que o mar se avermelha,
de um sangue que nunca foi meu,
procuro em meu corpo feridas,
mas vejo que o sangue é teu.

Ó, capitão dilacerado!
Eis o seu triste e cruel destino,
que por ti mesmo foste traçado,
com seus doces olhos de menino.

Agora me vejas lutar no mar,
pois em cada corte teu,
há um pouco de culpa,
misturado ao sangue a jorrar.

Porém, se eu morrer afogado,
querido algoz,
saiba que voltarei de bom grado,
para lhe tirar mais que tua voz.

Arrancar-lhe-ei a vida de uma só,
cortarei teu nome e afim,
dilacerar-te-ei até que não sobre nó,
e, só então, estarei livre de ti e de mim.

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