A Dor de Shirley


Eu o amava e ele tinha me traído. Queria saber a verdade e perguntei. Queria saber cada detalhe, cada movimento, cada toque, cada posição, cada olhar. Queria saber que sabor tinha aquele beijo. Doía-me e corroia-me enquanto ele contava os suspiros que tinha sentido em seu ouvido, cada arrepio que havia subido por suas costas nuas, como cada arranhada tinha surgido em seus braços morenos.

Mas, em algum canto obscuro de mim, algo me fazia ter tesão por aquela dor. Saber que o que era meu tinha possuído outra mulher me excitava.

Comecei a me despir e vi-o partir pra cima de mim enquanto eu me esquivava. Como não tinha tirado o sapato, lancei meu pé contra o seu peito nu e o fiz parar. O salto arranhara sua pele intacta. Mandei que voltasse à se sentar na cadeira que estava sentado, não queria dividir a mesma cama com ele. Não naquela hora. Não naquele momento.

Enquanto ele voltava a se sentar, terminei de tirar a minha roupa e me deitei nua na cama. Queria que ele me visse enquanto contava como tinha feito outra mulher gozar. E então, para sua surpresa, comecei a massagear meu corpo e a me tocar. Usar meus dedos para ampliar o prazer que aquela história estava me dando. Pedi que continuasse. Ele até tentou não falar, mas meus gritos pela verdade e a excitação dele fizeram com que ele continuasse a falar. Entendi então que não era simplesmente o prazer, era o prazer pela dor. Pela dor de perdê-lo. Era prazer pelo sofrimento de saber que tinha sido traída por aquele homem. Prazer de saber que o abandonaria não muito em breve. Autoflagelo.

E eu chorava. Chorava imaginando cada pedaço da cena que ele contava, enquanto seu membro enrijecia. Eu chorava enquanto meus dedos me penetravam e eu passava por aquela tortura. Preferia que ele me batesse. Que me amordaçasse. Preferia que me amarrasse e me fizesse sua escrava do que ouvir aquilo tudo. Mas eu precisava, por mais que minhas mãos tremessem. Por mais que meu coração parecesse saltar de minha boca. Eu precisava ouvir aquilo para saber, enfim, o quanto eu era tola em acreditar no amor.

Em algum momento da história, não lembro se foi antes ou depois do beijo após o gozo, eu pedi que parasse. Não agüentava mais. Não queria saber como ela tinha lambido o gozo dele e nem como ele tinha beijado a boca da outra suja, muito menos queria saber o que ele tinha achado do próprio gozo. Era demais até pra mim. E então me sentei e chorei mais. Abracei meus joelhos contra meu corpo e me deixei levar pelas emoções. Porém, como começou o choro, ele acabou.

Naquele momento, em que as lágrimas cessaram, eu tinha voltado a ser Shirley. Calmamente me vesti e mandei que ficasse sentado. Nu. Que não se levantasse e, muito menos, viesse à meu encontro. Tinha nojo dele. Coloquei cada peça de roupa da maneira mais devagar possível, penteei o cabelo e refiz a maquiagem. Beijei-o e deixei que meu batom vermelho sangue marcasse sua boca. Uma mancha vermelha nele. Uma metáfora do sangue que ele tinha feito meu coração derramar naquele momento.

E então parti. Deixei que ficasse lá apenas com minha lembrança e o que restava do meu amor entre suas mãos. Depois daquele dia, nunca mais o vi. E nem queria. Nem quero.

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